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quarta-feira, 30 de julho de 2003

Momento...

Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.
Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.

Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.

Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.

Pedes-me o momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.

Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.

Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.

Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.

Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora, por dentro.

Pedes-me o momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.


  Pedro Abrunhosa, Momento

Relatividade geral...

  Hoje fui ao hospital. Fui amavelmente informado de que não estou melhor, mas sim pior do que se pensava, e de que para o ano têm vagas para uma consulta. Fui mandado para casa mexer-me o mínimo possível.

  Enfiei-me no primeiro autocarro que vi. Ao sentar-me tomei noção do tinha estado a ouvir. Estava proibido de correr.
  Para mais referências sobre isso, ler o anterior texto, da Relatividade restrita.

  O autocarro que apanhei deu imensas voltas para chegar a um destino tão perto...
  Dentro do autocarro, gente que também vinha do hospital, com as suas histórias. Fora do autocarro, cinzentos, uns caminhando pelas ruas de regresso a casa, outros dentro das suas latas de conserva, parados no trânsito do IC19.
  Pouco depois, a entrada da Cova da Moura. Por duas vezes. O autocarro dá uma volta estratégica, de forma a ter a paragem a uma distância aceitável, sem que digam que não servem a localidade. Olhando para lá, não se imagina nome mais apropriado, Cova.
  A seguir, Buraca. Jovens negros com aspecto de jovens negros, sentados nas escadas dos prédios, com olhar ameaçador para quem passa, enquanto um deles tira fotos com o seu telemóvel MMS acabado de fanar... ah, comprar.
  Alfragide Norte, prédios e mais prédios, com andares e mais andares, e carros e mais carros, estacionados em passeios, estradas, e tudo o que é sitio. No meio deles, salta à vista um Porshe, reluzente, certamente acabado de surripiar... ah, lavar.
  Parque Eduardo Sétimo... Prostitutas, prostitutos. Um homem aponta para uma miúda, uma mulher (a mãe?) pega-lhe pela mão e arrasta-a, enquanto ela resiste, não querendo ir.

  Saio do autocarro no Marquês. Um mendigo escanzelado, em tronco nu, abraça-se às pessoas que passam na paragem. À frente, um miúdo pede um copo vazio de batido do McDonalds, a alguém que ia deitar fora.

  Olhei para a entrada do Metro, olhei para a minha perna. Fui a pé para Entrecampos.

Se...

Sombra...

  Ontem, na praia, virei-me de costas para o pôr do Sol.
  Reparei que a minha sombra ia crescendo, conforme o Sol se aproximava da linha do horizonte. Foi crescendo, foi crescendo, até que toda a praia estava coberta pela minha sombra. Era noite.

  Se fosse o nascer do Sol, o contrário se passaria. A escuridão desapareceria, e a minha sombra diminuiria, até ser um mero ponto debaixo dos meus pés, por volta do meio-dia.

  É com o pôr do Sol que chegamos a todo lado. É nos momentos de escuridão que mostramos as nossas potencialidades.
  É fácil ajudar nos momentos de luz, de felicidade. É fácil estar presente, fazer parte, participar. Não requer esforço, qualquer um é capaz.

  É nos locais de terror, de miséria, de infelicidade que temos de espalhar as nossas capacidades. É difícil. Requer muito esforço. Qualquer um é capaz.

  Luzia jogava muito ao espelho em miúda, não o disse já? para inventar o imaginário na distância dele ao real. Porque todo o real precisa de outro real para existir.

  Vergílio Ferreira, Na tua face

Agora...

(8)  Porquê não nos chega o agora?
(7)  Vivemos obcecados com o futuro. Penhoramos o presente. Queremos mais, queremos tudo. Já não queremos o que temos ou o que não temos. Queremos o que vamos ter ou o que poderemos ter.

(6)  Não que não devamos ser ponderados, e agir sem pensar. Não que não devamos fazer planos, preparar o que aí vem. Aliás, o futuro é a base dos sonhos... Mas vivam a vida! Carpe diem.
(5)  Vivemos num mundo ao contrário, em que as consequências são razão das causas. Somos escravos do futuro.

(4)  Quando olhamos para trás, perdemos um monte de coisas. Podemos ter chegado onde planeamos, provavelmente não. Mas não vivemos o caminho, não apreciamos a paisagem.

(3)  Vivemos deprimidos com o que poderá acontecer, como se não nos bastasse o que está a acontecer. Negligenciamos o que estamos a viver, o que os outros estão a viver, os momentos que se passam.
(2)  Tornámo-nos uns autênticos videntes. Evitamos fazer coisas que não tenham perspectivas futuras. Planeamos nossa vida de acordo com expectativas sem fundamento. Gastamos 1/6 do dia a planear o dia seguinte.

(1)
[Mateus 6:34]
Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá as suas preocupações. A cada dia basta a sua própria dificuldade.

  Agora, leiam o texto ao contrário.

Liberdade artística...


  - Vou fazer um quadro à Picasso! - Diz-me a minha sobrinha, e desenha um círculo dentro de um rectângulo.

  Arte... A área em que me considero realmente ignorante. No entanto, quando há uns tempos atrás visitei o Museu Rainha Sofia em Madrid, houve um quadro de Miró (que infelizmente não encontrei na net; o que aparece neste post também é de Miró, mas não o que justifica esta pequena história) que me provocou algum entusiasmo. O quadro é uma tela com dois pontos vermelhos. Aparentemente, qualquer pessoa é capaz de fazer um quadro assim. Então, porque vale tanto? Porque está no museu? Será só a assinatura?

  Graças ao audio-guia, esse quadro entrou na minha lista dos favoritos. Faz a apologia da liberdade artística, da liberdade de criação. As regras não devem restringir este acto criador. Ter um sentido, um objectivo ou uma mensagem a passar não é obrigatório. O que o público vê é diferente do que o artista quer transmitir (se é que pretende transmitir algo). A subjectividade está inerente à criação artística. E Miró pretendeu fazer passar esta mensagem através do extremo: dois pontos sobre uma tela.

  Os artistas ou os conhecedores de arte ou qualquer pessoa que seja ligeiramente entendedora pode refutar facilmente isto. No entanto, para uma ignorante como eu, a arte será sempre isto: a liberdade de criação. E por isso, até a minha sobrinha poderá vir a ser no futuro uma artista de renome...

terça-feira, 22 de julho de 2003

A consequência dos semáforos...

  Odeio os semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho nenhuma, sem falar do amarelo que provoca em mim uma indecisão horrível: travo ou acelero? travo ou acelero? travo ou acelero? acelero, depois travo, volto a acelerar e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo de chave-inglesa na mão saiu da furgoneta a chamar-me Seu camelo, já a companhia de seguros me propõe calorosamente que a troque por uma rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago aos táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e ainda por cima tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa Senhora de alumínio do tablier, o esqueleto de plástico pendurado do retrovisor, o autocolante da manina de cabelos compreidos e chapéu ao lado do aviso «Não fume que sou asmático», proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja.

  A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que páro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras vistuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam automaticamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a costa de aleijões

(microcefálicos, macrocefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc.)

sem contar o grupo de Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma viagem de fim de curso à Birmânia e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia.

  Resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnada para assaltar por meu turno, de mistura com uma multidão de bombeiros, de estudantes, de drogados e de microcefálicos o primeiro automóvel que aparece. Em média mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixam-se de eu não ser pontual.


  António Lobo Antunes, Livro de Crónicas

Missões...

  «Eles não sabem nem sonham que quando um Homem sonha o mundo pula e avança como uma bola colorida nas mãos de uma criança!»

  Porquê sonhamos tanto? De onde nos vêm os sonhos? E porquê sonhamos com uma coisa e não com o que o vizinho do lado sonha?
  Que engraçado... não sabemos de onde nos surgem, mas a verdade é que se temos força e garra para alguma coisa é para a concretização desses mesmos sonhos!
  E vale a pena viver sem isto?...

  E há os sonhos mais variados... dos mais específicos aos mais gerais, dos mais concretizáveis aos mais impossíveis... os que dependem apenas de nós e os que dependem do que nos rodeia...
  Os sonhos podem nos trazer as piores e as melhores sensações da vida... é um risco sonhar... mas quem não arrisca não petisca... e o mais maravilhoso é que os sonhos podem ser tão infinitos como as estrelas! Atrás de um vem sempre outro e outro e outro...

  Quem deixa de sonhar morre! Mas às vezes parece que é preciso que nos recordem que estamos a morrer...

sexta-feira, 18 de julho de 2003

Reflexos...

  Há muito que me habituei a observar as pessoas no reflexo do vidro do comboio.
  É a forma de o fazer sem que notem em nós, e evitar o desconforto dos acidentais contactos visuais directos. Permite também seguir uma conversa que não nos diz respeito, contemplando o olhar vivo do orador.

  Em geral as pessoas parecem mais bonitas. As imperfeições dos seus rostos são esbatidas pela quase imperceptível ondulação dos vidros. Rostos mais velhos rejuvenescem, sem perderem, no entanto, o respeito que impõem, dos anos de experiência que parecem se ter acumulado em camadas.

  Já observei muita gente. A maioria viaja sozinha, regressando do trabalho. Olhar no vazio, mal se mexem. Aguardam, impávidos, que o comboio chegue ao destino, para se dirigirem para as camionetas, mantendo o mesmo olhar no vazio, apenas mexendo as pernas de uma forma já automatizada.

  Chamo-lhes os cinzentos. Pessoas que vivem os dias iguais uns aos outros, presos numa rotina monótona.

  Sempre me interroguei porquê a vida não pode ser como nos filmes. Se nos filmes somos capazes de fazer tanta coisa, porque não o fazemos na vida real? Se os filmes são os nossos sonhos, porque não os concretizamos?

  Porquê não havemos de viver num musical? Porquê é que no comboio alguém não se levanta de repente e começa a cantar, prontamente acompanhado por toda a gente da carruagem, que se transformam em bailarinos?
  Porquê não somos capazes dos gestos altruístas e heróicos que vemos nos filmes, e que às vezes até nos fazem chorar? Porquê não havemos de ser capazes de tudo por um grande amor, porquê não acreditamos no Amor?
  E porquê não afirmamos a nossa unicidade e características identificadoras, como qualquer personagem principal de um filme?

  Devemos admirar qualquer pessoa que procure ser diferente. Ou melhor, diferentes todos somos, mas que afirmem a sua diferença. Admiremos as pessoas que quebram as monotonia dos cinzentos do comboio, e que até lhes podem provocar alguns risos.
  Não, não temos de estar condenados à realidade que criamos! Podemos sempre recriar! Chega de vida real! Viva o surreal!
  Pintem o cabelo, ajudem um pobre, aqueçam cubos de gelo, vistam-se de robe. Cantem. Andem de lado, comam devagar. Façam um piercing. Cantem. Chamem por "Comboio!" em vez de "Taxi!". Não façam sentido, libertem-se, recriem o mundo à medida que andam. Observem tudo, usem tudo, cantem.
  Mas não o façam por modas! Se todos pintam de azul, pinta de laranja. Se todos pintam, não pintes. Mas se queres pintar, pinta. Se já não se pinta, continua a pintar. Canta.
  Não façam o que este post diz. Façam o que vos der na gana.

  Sejam diferentes, mas sejam vocês mesmos. Mudem o mundo, mas não mudem o «Eu». Recriem, recriem, recriem.

  Podemos ser diferentes de muitas maneiras...
  Ontem vi mais um reflexo... No vidro separador entre as cadeiras e a porta, vi, muito esbatido, o revisor. Homem já dentro dos 50. Falava vivamente com um passageiro, que viajava sem bilhete.

  «Não se preocupe! Nós somos humanos! Se bem que é um problema de muitos na nossa classe. Há colegas que fazem só o que lhes mandam. Depois trabalham como autómatos, perde-se a humanidade. Não pode ser!»

  «Há diversas situações que temos em conta. Em primeiro lugar os toxicodependentes... Ora, nós sabemos que todo o dinheiro que arranjam é para o vicio, como é que podem pagar o bilhete? Andavam de comboio como?
  E para quê outras medidas? Qual vai ser o juiz que vai obrigar alguém a pagar uma multa, no estado em que aquele homem está?»

  «Depois a comunidade de etnia Africana. São gente desenraizada! Os Africanos, os de Leste, Sul Americanos e qualquer outros! Quando alguém sai da sua terra fica desenraizado, é claro. E enfrentam muitas dificuldades aqui.
  E não é que muitos não tenham dinheiro para pagar. Mas para que vamos identifica-los? Dão-nos uma morada, "Praceta da Índia, número tal", por exemplo... Passados anos, quando o tribunal os chama (sim, porque chega a demorar 3 ou 4 anos), já eles não vivem lá, voltaram para a sua terra.»

  «E há ainda os outros. Mas procuramos analisar caso a caso. Temos de ser humanos. Em principio, se o passageiro colaborar, tudo se resolve bem.»

  O trabalho deste homem é de andar o dia inteiro para cima e para baixo num comboio. Dando possibilidade, aos que podem, de exibir o seu titulo de transporte válido, e dando compreensão e um sorriso aos que infelizmente não podem.
  Ao longo do dia encontramos poucas pessoas que realmente merecem o ordenado que recebem. Este merece-o, e ainda mais.

quarta-feira, 16 de julho de 2003

Exercício umbiguista...

  Odeio mediatismo! Prefiro as elites.
  Afinal de contas, o que é a cultura se não for para elites, pequenas e restritas?

  Aderi ao fenómeno blog considerando que era um meio de comunicação, de liberdade de expressão, democrático. Continuo a considerá-lo deste modo e a aceitar a importância que ganhou na actual sociedade de hiper-informação rápida.
  No entanto, parece que o resto do mundo deixou de existir e restringiu-se aos blogs! Parece-me um exagero!! Saiam da net e olhem para o mundo lá fora! Saiam de casa! Vão à praia! Leiam! Sejam burros e não pensem! Mas não me importunem!

  Ok, é óptimo e saudável trocar ideias. Mas eu prefiro falar com uma pessoa à minha frente! Prefiro os pequenos grupos e a calma de uma conversa de café do que um computador!

  Desde o mês passado que este fenómeno sofreu uma explosão mediática auxiliada pela sucessivas referências na imprensa. Agora, eles nascem que nem cogumelos. Uns melhores, outros piores, outros... São poucos os que consigo acompanhar.
  Imagino como será daqui a uns meses, possivelmente dentro de um ano. Parece-me que o entusiasmo terá passado e apenas restarão os resistentes, que espero que sejam os melhores.
  Enfim... o tempo o dirá.

Congratulations...

  O Anti-Blog do Artista Anónimo faz 5 dias!
  Têm havido momentos difíceis, para manter um Anti-Blog durante tanto tempo, mas a força do Artista é muita, e promete manter-se pelo menos por outros tantos!

  Apesar de ter já perdido a sua principal característica, isto é, de ser um Blog totalmente privado, sem nenhum leitor, a sua identidade única mantém-se. É altura de esclarecer quais as características dos artigos aqui colocados.

  O dicionário MarketingTerms.com define blog como uma publicação frequente e cronológica de pensamentos pessoais e de links da Web. Considera o blog uma mistura dos acontecimentos na vida das pessoas e dos acontecimentos na web, uma espécie híbrida de diário pessoal/guia de sites.

  Assim:

  • Todos os posts terão de ser longos, intrincados, de leitura não-fácil;

  • Não haverá qualquer link para fora do Blog: o resto da net não existe, nem mesmo outros Blogs;

  • Não se falará da actualidade: só se comenta uma notícia passados 3 ou 4 dias;

  • Posts surreais, sem significado, são bem-vindos;

  • Não haverão elementos de identificação pessoais, quer do Artista Anónimo actuante, quer de qualquer outro Artista Anónimo: serão usados nomes fictícios e estereotipados, se necessário;

  • Os membros do Blog são anónimos.
  Se não fosse esta vida azul...

terça-feira, 15 de julho de 2003

Pensar positivo...

  Gaja parva, #!*%!#&$**#$, *&/$%"#$!"#$% diz:
    Fala de qualquer coisa positiva, diz bem de alguma coisa

   Boa... De que posso eu falar bem?
  Não sei mesmo se não acabei de escrever uma antítese na frase anterior... Afinal, são anos e anos de criticas negativas, tentando faze-lo de forma implacável, nem que isso destrua o sorriso que alguém tinha na cara, antes de se aperceber da porcaria que fez...

  Comecei cedo. Já na primária os pontos que realçava nas composições de visitas de estudo eram os tempos de espera (odeio esperar), e ainda o vicio das professoras por café.

[7 de Dezembro de 1990 - Visita à Biblioteca]
[...] No fim a Bibliotecária Maria de Deus ofereceu-nos rebuçados e canetas e às professoras café.

[22 de Fevereiro de 1991 - Visita à Malveira]
Por volta das 8h35m fomos à Malveira (55 km +-) mas antes de chegarmos parámos para as professoras beberem café. [...]

[5 de Março de 1991 - Visita ao Aeroporto de Lisboa]
Hoje, dia 5/3/91, fomos ao Aeroporto de Lisboa. [...]
Quando chegamos vimos guardas com metralhadoras e ficámos lá à espera 0h45m. Depois chegou o guia e levou-nos a visitar o Aeroporto. Para ir para cima passámos por um tapete rolante e fomos para a camioneta.
Ainda esperámos 0h5m pela camioneta. Na camioneta o Sr. explicou coisas sobre o Aeroporto. [...]
Depois estivemos à espera da camioneta para irmos para a escola.

  Com o tempo aperfeiçoei a minha veia critica, e posso agora orgulhar-me de ser capaz de deitar por terra muita ideia, seja ela boa ou má...
  Mas a concorrência é cada vez mais apertada. São os "opinadores", de que se falou no primeiro post...

  Estamos numa altura em que já não se põe o problema de agradar a Gregos e a Troianos. Simplesmente não se consegue agradar a ninguém, ponto final. Não vale a pena tentar chegar a consensos, porque eles são uma espécie extinta.
  Não vale a pena a concertação social, porque os sindicatos quererão sempre mais 1% de aumento; não vale a pena reformar o ensino, porque os alunos quererão sempre menos exames; não vale a pena acabar com lixeiras, porque a população nunca aceitará nem um aterro, nem uma incineradora...
  Não vale a pena governar bem, porque será sempre pedida a queda do ministro, mesmo pelos que nem sabem o seu nome; não vale a pena a transmissão diária do parlamento, porque os deputados serão sempre aqueles que nunca lá estão; não vale a pena separar as águas entre politica e futebol, porque nunca se será reeleito.

  É tão fácil falar mal da situação económica, do governo... É tão cómodo culpar tudo e todos, menos nós próprios.
  Mas porquê tem de ser o Estado a nos tirar dos buracos onde nos enfiamos? Nós somos o Estado! Parem de falar dele como se fosse uma pessoa. É uma entidade abstracta, que representa o conjunto de todos nós, com instituições e órgãos que exercem funções no interesse comum.

  Nunca vamos avançar enquanto continuar a ser o Estado a suportar os esforços, cada vez que há uma crise económica. Tem de ser o sector privado a investir, têm de ser as pessoas a acreditar e ter espírito empreendedor. É nas épocas de crise que surgem oportunidades e se fazem grandes riquezas. E é nos tempos de dificuldade que mais é precisa esta atitude de ir para a frente.

  Mas é mesmo mais simples ficarmos sentados diante do fracasso, da falta de confiança, da depressão, e pensarmos «Mas que posso eu fazer?», e esperar que os outros façam por nós aquilo que queremos.

[FMI - José Mario Branco]
Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! [...]
E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? [...]
Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! [...]
Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro!

segunda-feira, 14 de julho de 2003

Escolaridade...

  Continuando na demanda dos motivos da estupidez humana, talvez se deva olhar para o sistema de ensino...
  Quase todos ouvimos os nossos pais dizerem que no tempo deles aprendia-se mais na Escola... Nós refutamos, com alguma razão, pois eles antes aprendiam todas as estações ferroviárias, rios e montes de Portugal e colónias...
  Mas também tenho de admitir que estudei para o exame de 12º ano de Matemática pelo caderno do 10º ano da minha mãe...

  Algo de estranho se passa. Os miúdos são cada vez mais estupidamente estúpidos, e escusam de me dizer que com a idade deles também era assim, porque eu sei que não era!
  Mas não foram as capacidades intelectuais das crianças que diminuíram, pois elas são capazes de aprender sozinhas a mexer em computadores, quando os adultos nem os sabem ligar. O problema tem então de estar no outro lado, ou seja, ou nos professores, ou no sistema.

  Ia tentar escusar-me a comentar a maneira como ensinam hoje os miúdos a ler... Mas é mais forte que eu. A pouco mais que a meio da primeira classe já sabia ler, o que era quase uma vergonha, porque algum dos meus colegas já sabiam ler da pré-primária...
  Hoje ensinam os miúdos a ler ao contrário, a decorar frases sem saberem porque se escrevem assim, depois decorar palavras sem saberem porque se escrevem assim... Venham-me lá com os vossos estudos pedagógicos que me estou pouco lixando! Letra, sílaba, palavra, frase! Esta é a ordem certa. Esta é a ordem que nos faz de vez em quando escrever "certesa" com 's', porque percebemos como funcionam as coisas, e não escrever sempre "certeza" com 'z', só porque decoramos a palavra, e se nos aparecer uma nova estamos lixados.

  Ok, mas de onde me vem agora esta indignação contra o sistema de ensino? Do sitio de onde não deveria vir, da faculdade.
  É o local de estupidificação por excelência. Apercebi-me disso este mês, com as frequências e exames. Surgiu-me a interrogação sobre porque é possível passar às cadeiras, sem ter lá posto os pés durante o semestre todo.
  Com dois dias de estudo faz-se qualquer exame. E porquê? Porque são sempre iguais aos dos anos passados, porque as respostas são metódicas, porque se avalia a capacidade de decorar em vez da de aprender.
  Que incentivo temos para ir às aulas, se lá vamos para ver passar os mesmos acetatos que vamos ler nos tais dois dias antes do exame? E afinal que estamos lá a aprender de útil? Há alguma coisa que não possamos ir procurar na Internet quando precisarmos na nossa vida profissional?
  Porquê não é melhor aproveitada a faculdade? Porquê não produzimos, investigamos, criarmos, descobrirmos, aprendemos? Depois queixam-se da falta de dinamismo e de espírito empreendedor dos nossos empresários, da falta de produtividade e passividade dos nossos trabalhadores.
  Deveria ser a Universidade a possibilidade de estimularmos essas atitudes, apoiados pelo Estado, de forma a nos dinamizar, e podermos fazer empreendimentos como deve ser.

  É fácil dizer que a culpa é dos alunos... Eles que procurem isso, indo às aulas, passando sem copiar, procurando mais que o 10... Mas é humano procurar o caminho mais fácil. E para ultrapassarmos essa limitação, é preciso motivação. E pagamos para isso! O ensino é pago, quer seja por nós, quer seja pelo Estado, alguém está a pagar pela prestação de um serviço, e esse serviço tem de ser prestado com qualidade.

  Enfim... Saudades das aulas do Básico e Secundário, que eram tão mais dinâmicas...

Prisão perpétua...

  É preciso perceber que há consequências que são inevitáveis, tendo em conta as situações que as originaram. É de certa forma injusto que assim seja, se pensarmos que não somos capazes de controlar o sistema em que vivemos.
  Mas que sistema é esse? É uma pergunta fácil de colocar, mas difícil de responder, porque ninguém sabe ao certo do que se trata. As pessoas falam sobre os problemas, mas falta-lhes arranjar uma forma de saberem como vigiar a realidade que os rodeia.

  Foi quando era pequeno que me apercebi que não compreendia antes de aprender. Foi nesse processo que fui capaz de atingir alguns objectivos, mas não passaram de pequenas ilusões, que mais nada faziam do que consumir as hipóteses que restavam. Mudei. Agora já não enfrento as dificuldades que surgem do nada. Espero antes que me sejam colocadas as hipóteses, de forma a que possa optar tendo em conta todas as possibilidades inerentes à situação.

  Infelizmente ainda não é assim que se passam as coisas neste nosso país. As dificuldades são impostas pelo poder vigente (ou deverei dizer regente?), sem que nos apercebamos da imensidão que a todos nos consome, nesta vida que já nada diz aos outros.
  E são os outros que nos interessam! Sempre os outros, não há volta a dar à questão. Foi assim aquando da fecundação, foi assim ao nascer, foi assim ao crescer, e será assim ao morrer.
  Não há que lutar, pelo simples facto que não há nada para vencer. Estamos condenados à realidade, a esta realidade que construímos, feita das nossas opções, e que sempre nos vai acompanhar, modificando-se com as acções produzidas pela vontade do tempo.

  Enfim... Que sejamos capazes de aguentar, até ao dia em que não seja preciso atender o telefone ao destino, nem deixar mensagem no Voice Mail da vontade pessoal.

domingo, 13 de julho de 2003

Relatividade...



  Pela primeira vez, assistir a estas imagens não me trouxe de imediato sentimentos de repúdio pelos maltratos aos animais, de estupefacção pela manutenção de tradições estúpidas, e de júbilo pelas pisadas e cornadas que alguns participantes têm a sorte de levar.
  Desta vez o que me surgiu na cabeça foi: «Alguma vez vou poder voltar a correr assim?».

  Lembrei-me dos 10 segundos que demorava a correr metade da rua lá em Lisboa, só para no fim ouvir alguém dizer «Parecias um foguete!»; lembrei-me das provas de velocidade que ganhava na Escola; lembrei-me das minhas fugas aos rufias que me perseguiam na Escola; lembrei-me das apostas «Eu vou por aqui e tu por ali, mas não vale correr...»; lembrei-me das escadas mais íngremes do Cacém; lembrei-me das ruas estreitas das vilas da Madeira; lembrei-me dos 25 minutos que demorei desde aqui de casa ao Colombo; lembrei-me das minhas mudanças de direcção, em ângulos de quase 90º, sem perder velocidade; lembrei-me dos ataques de fúria, que me faziam correr feito louco; lembrei-me dos ataques de euforia, que me faziam correr feito louco; lembrei-me da sensação de voo e liberdade, que tinha ao correr pelas ruas de Lisboa...

  E depois lembrei-me... dos touros.
  Por mais fiel que se seja a uma causa, por mais empenhado que se esteja num problema, tudo é relativo. Não podemos nos preocupar com tudo, não temos capacidades para tal. Há que eliminar problemas.
  Talvez fosse de esperar que o critério fosse o dos problemas maiores e mais importantes primeiro. Mas não o é. Aplica-se uma mistura entre o "princípio da subsidiariedade" e o egoísmo.
  As pessoas tendem a se preocupar com os problemas que as afligem mais directamente. Não é uma atitude condenável, é perfeitamente humana, animal, natural.
  Não há que esperar, portanto, que as pessoas se preocupem com reciclagem, quando têm um emprego precário; que se preocupem que a Fátima Felgueiras ande a roubar a câmara, quando na noite anterior foram eles roubados na sua própria rua; que se preocupem em ir votar, quando o Domingo é dos poucos dias que têm para saírem com a família.
  Este não vai ser um país evoluído e civilizado enquanto as pessoas tiverem de se preocupar com a sobrevivência dos seus, e com a manutenção do seu bem-estar no dia-a-dia. Quando os cidadãos puderem tomar estas coisas como garantidas, então sim disponibilizarão tempo para pensar e serem culturalmente, socialmente, politicamente e ecologicamente activos.

  Mas convirá isso à classe politica, tão bem instalada no seu sistema de poder rotativo? O que será mais fácil: governar, ou criar novos problemas, que ocupem mais um bocado o cidadão, para que não pense?
  Eu estou a sentir a crise na pele... Porém, à minha volta não vejo ninguém em situação semelhante... E os voos para qualquer destino de férias encontram-se cheios... Existirá mesmo esta crise económica, que todos preocupa e que tanto pessimismo levanta?
  Os ataques de 11 de Setembro foram marcantes, pela sua originalidade e destruição... Mas o número de atentados terroristas subiu em relação aos anos anteriores? Estaremos mesmo sobre essa grande ameaça, de ataques iminentes e de permanente código amarelo, e que justifica intervenções militares, politicas e económicas em outros países?

  São apenas alguns exemplos... Mas já pararam para pensar, afinal, quais são ou não são os verdadeiros problemas?

sábado, 12 de julho de 2003

Blog...

  Fêmea pseudo-intelectual de esquerda, cheia de dinheiro diz:
    Tu é que podias ter um Blog. Escrevias lá as tuas opiniões....

   Mas eu tenho opinião sobre alguma coisa? Deixei oficialmente de pensar... É mais fácil assim, para além que facilita as conversas surreais...
  Pensar é um acto socialmente condenável. Já não se usa. Quem o faz está de demonstrar desrespeito para com os outros.
  Após o 25 de Abril, a cambada de esquerda, sempre com as suas manias, decidiu despenalizar as opiniões (querem agora fazer o mesmo com as drogas leves…). Isto marcou o começo do fim do pensamento.
  Opiniões a torto e a direito. Os pensadores que haviam, e que eram bastantes, foram engolidos. A estupidez crónica começou a vir ao de cima.
  Hoje, de todos os lados aparecem pessoas que preferem dar opinião do que pensar. Os programas de TV populam de paineleiros, que aspiram a ser o mais bem sucedido opinion maker, acabando por disseminar a sua imbecilidade por mais uns milhares de seres.

  Mas em lugar algum é mais visível essa estupidez crónica do que nessa massa a que comummente chamamos Povo, e que se julga dona de verdades fundamentadas e irrefutáveis, mesmo que o vizinho do lado “pense” o contrário.
  É-me por isso impossível assistir ao Opinião Pública… Será que os participantes ao menos se dão ao trabalho de ouvir e reflectir sobre o que o convidado e os intervenientes anteriores disseram, antes de vomitar a sua opinião?
  Mas, por outro lado, acho irresistível assistir a uma boa reportagem sobre uma manifestação, com muitas entrevistas de rua.
  Mas porquê as pessoas insistem em abrir a boca?